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A Realidade das Dietas Cruas (Raw Food) na Nutrição de Cães e Gatos

Quando vejo alguém buscando melhorar o manejo nutricional de um cão ou gato, a intenção é sempre a mesma: oferecer a melhor qualidade de vida possível, refletindo um cuidado profundo com a longevidade do animal, independente de ele ser saudável ou não. Nos últimos anos, impulsionadas pelo apelo ao “natural” e à ancestralidade, as dietas cruas, denominadas Raw Meat-Based Diets (RMBDs) ou BARF (Biologically Appropriate Raw Food), conquistaram um espaço significativo no mercado pet e nas redes sociais.

Cão com dieta crua

A justificativa mais comum para a adoção dessa dieta baseia-se na biologia evolutiva: “Se os lobos e os felinos selvagens comem presas cruas na natureza, o alimento cozido ou extrusado não seria inadequado para o meu pet?”.

Ilustração sobre biologia evolutiva

Embora o questionamento seja lógico, a resposta é mais complexa. O cão doméstico (Canis lupus familiaris) passou por adaptações genéticas significativas ao longo de milhares de anos convivendo com humanos, incluindo o aumento expressivo na expressão do gene AMY2B, que codifica a amilase pancreática, tornando-os hábeis na digestão de amido cozido. Além disso, o objetivo na natureza é a sobrevivência e a reprodução a curto prazo, enquanto o objetivo com os nossos pets é a longevidade, visando a cães e gatos que vivam 15, 18 ou mais de 20 anos com saúde plena.

Para tomar uma decisão segura e fundamentada sobre o que colocar no comedouro do seu pet, é essencial analisarmos os prós e contras sob a luz da ciência, sem romantismos, sensacionalismo ou demonização de ingredientes.

Quais são os benefícios da dieta crua?

É fundamental validar que tutores adeptos das dietas cruas relatam melhorias visíveis em seus animais e a literatura endossa algumas dessas observações.

O principal argumento das dietas RMBDs é que elas oferecem altíssima digestibilidade aparente em relação aos macronutrientes. Ao não submeter as proteínas de origem animal ao processamento térmico presente no cozimento dos alimentos, a estrutura proteica original é preservada, o que aumentaria o aproveitamento. Mas será que é isso mesmo?

Precisamos ter cuidado com comparações simplórias e diferenciar a comparação da dieta crua com a extrusão de rações comerciais e com a alimentação natural cozida. Quando comparamos a carne crua com rações secas (que passam por extrusão em altíssimas temperaturas), a dieta crua apresenta, de fato, maior digestibilidade proteica. No entanto, quando comparamos a dieta crua com a dieta caseira cozida, temos um cenário diferente. O calor do cozimento brando (como no vapor ou em banho-maria) desnatura as proteínas de forma benéfica, ‘desenrolando’ suas cadeias e facilitando o trabalho das enzimas digestivas do pet. Ou seja, o alimento cozido corretamente possui uma digestibilidade equivalente ou até superior ao cru, entregando uma excelente absorção de nutrientes sem nenhum risco atrelado.

Na prática e no dia a dia do tutor, a dieta crua se traduz em vantagens claras:

  1. Redução do volume e odor fecal.
  2. Aumento indireto da ingestão hídrica: Carnes in natura possuem cerca de 70% a 80% de umidade. Especialmente para os felinos, que herdaram de seus ancestrais desérticos uma baixa sensibilidade à sede, a alta umidade da dieta é uma ferramenta profilática crucial contra doenças do trato urinário inferior.
  3. Alta palatabilidade: A composição rica em gorduras e proteínas frescas atrai animais com apetite caprichoso ou hiporexia.

Avaliação crítica da dieta

Contudo, fezes firmes e boa aceitação imediata não são marcadores suficientes para atestar a segurança e a suficiência de uma dieta crua a longo prazo. É neste ponto que a avaliação exige um olhar mais crítico.

A matemática da nutrição

A formulação de uma dieta completa não é apenas a soma de ingredientes frescos. Cães e gatos necessitam de nutrientes essenciais em proporções exatas e em equilíbrio. Os gatos, por serem carnívoros estritos, possuem exigências ainda mais complexas, como a necessidade dietética de taurina e ácido araquidônico (FEDIAF, 2024). Segundo as diretrizes do National Research Council (NRC) e da FEDIAF (órgão europeu que regulamenta os alimentos para pets), um cão adulto necessita de pelo menos 37 nutrientes essenciais diariamente, enquanto um gato necessita de mais de 40.

Estudos recentes confirmam que esse padrão de inadequação persiste até mesmo em produtos que se dizem completos. Uma avaliação minuciosa publicada por Vecchiato et al. (2022) analisou diversas dietas cruas (RMBDs) comerciais, revelando falhas frequentes em atingir as exigências mínimas da FEDIAF. O estudo demonstrou que grande parte das formulações apresenta desbalanços críticos na relação Cálcio:Fósforo, além de deficiências minerais importantes, como de zinco e cobre.

Os riscos a longo prazo desses desbalanços são silenciosos, mas graves:

  • Em filhotes e animais em crescimento: A deficiência de cálcio (ou o excesso relativo de fósforo proveniente da carne magra sem a devida suplementação de cálcio) desencadeia o hiperparatireoidismo secundário nutricional. O organismo passa a retirar cálcio dos ossos para manter os níveis sanguíneos, resultando em osteodistrofia fibrosa, deformidades ósseas e fraturas patológicas.
  • Em felinos: A deficiência de taurina, que pode ocorrer se as carnes cruas utilizadas perdem muito líquido no descongelamento ou se o mix não tiver as fontes adequadas, pode levar à degeneração central da retina (cegueira irreversível) e Cardiomiopatia Dilatada (CMD).

E há algo importante que não podemos ignorar: a microbiologia e a segurança pública.

O ponto de maior atrito e o motivo pelo qual as principais entidades globais de veterinária desaconselham ativamente as dietas cruas é o risco epidemiológico. O Comitê Global de Nutrição da WSAVA (World Small Animal Veterinary Association) e a AVMA (American Veterinary Medical Association) mantêm diretrizes rígidas contra o uso de carnes cruas (WSAVA, 2020). A preocupação não é apenas o pet, mas a família humana.

Embora o trato gastrointestinal de um cão ou gato saudável seja mais ácido e possua um tempo de trânsito mais rápido do que o nosso (o que lhes confere certa tolerância a bactérias), eles não são imunes. Além disso, o perigo estende-se primariamente à família humana.
Carnes cruas e vísceras são vetores naturais de patógenos com alto potencial zoonótico (doenças transmitidas dos animais para os humanos). Estudos demonstram que dietas cruas comerciais ou caseiras apresentam altas taxas de contaminação por Salmonella spp., Campylobacter, Listeria monocytogenes e cepas produtoras de toxinas da Escherichia coli.

O maior erro que vejo sendo propagado em relação a esse assunto, é que “o pH estomacal do cachorro/gato destrói as bactérias”. Será mesmo que o estômago do nosso pet tem um potencial antibiótico? A resposta é não. Embora o pH gástrico dos carnívoros seja, de fato, bastante ácido durante a digestão, o esvaziamento gástrico para carnes cruas (que possuem muita água) é rápido. Além disso, a altíssima carga bacteriana presente na carne contaminada sobrecarrega essa barreira ácida primária, permitindo que patógenos como a Salmonella e a E. coli passem ilesos para o intestino, onde encontram o ambiente ideal para se multiplicarem.

Mesmo que o cão ou gato não apresente diarreia ou qualquer outro sinal relacionado, eles se tornam carreadores assintomáticos. Eles ingerem a carne contaminada, incubam a bactéria e passam a eliminar Salmonella ou E. coli ativa nas fezes por semanas. Isso contamina o ambiente da casa, gramados, caixas de areia, tigelas e utensílios… Para casas com crianças pequenas que engatinham, idosos, gestantes ou pessoas em tratamentos imunossupressores, o simples ato de o cachorro lamber o rosto do dono após comer a dieta crua representa um risco de saúde de grau altíssimo.

Esse risco é considerado inaceitável do ponto de vista da saúde pública.

A Questão dos Ossos Carnudos

Muitos protocolos de Raw Food defendem o uso de ossos carnudos crus como fonte natural de cálcio e ferramenta de limpeza dentária (raspagem de tártaro). No entanto, a literatura odontológica veterinária documenta que o atrito gerado pelos ossos frequentemente resulta em fraturas de esmalte e quebras dos dentes pré-molares, além de representarem um risco contínuo de perfurações esofágicas e gastrointestinais, obstruções por compactação fecal óssea e constipação severa.

A remoção do cálculo dentário deve ser feita através de um procedimento realizado por dentista veterinário e com anestesia segura, e não às custas de um risco de perfuração do trato gastrointestinal.

A Alternativa Segura

A busca por uma alimentação mais natural, menos processada e com alta biodisponibilidade não precisa ser sinônimo de risco microbiológico ou desbalanceamento. Precisamos imitar a biologia de um lobo nas florestas nevadas para garantir a saúde do nosso Yorkshire no apartamento? Não. Nossos cães domésticos coevoluíram com os humanos por milhares de anos e são adaptados e beneficiados com uma dieta cozida.

É perfeitamente possível oferecer todos os benefícios da alimentação natural (alta digestibilidade, umidade, ingredientes frescos, palatabilidade, controle de alérgenos…) sem submeter a família ao risco e sem comprometer a saúde do animal com desbalanços.

A resposta da Medicina Veterinária atual para os tutores que não querem oferecer rações extrusadas é clara: dietas caseiras cozidas, formuladas e suplementadas. O cozimento elimina a ameaça da Salmonella, da E. coli e de outros patógenos, enquanto a suplementação vitamínico-mineral preenche precisamente as lacunas que o cozimento ou o ingrediente natural deixaram para trás, seguindo o padrão ouro estabelecido pelas entidades nutricionais.

Referências Bibliográficas

  • VECCHIATO, C. G. et al. From Nutritional Adequacy to Hygiene Quality: A Detailed Assessment of Commercial Raw Pet-Food for Dogs and Cats. Animals, v. 12, n. 18, 2395, 2022.
  • WSAVA (World Small Animal Veterinary Association). (2021). Global Nutrition Committee: Raw Meat-Based Diets for Pets. Documento de posicionamento oficial desencorajando o uso clínico devido a riscos zoonóticos e desbalanços não mitigáveis.
  • FEDIAF (European Pet Food Industry Federation). (2024). Nutritional Guidelines for Complete and Complementary Pet Food for Cats and Dogs. Requisitos nutricionais detalhados.

Dra. Isabel Pet Nutri

Writer & Blogger

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